No horizonte, as águas do Tapajós e Amazonas, entre os municípios de Santarém e Óbidos, no Pará, vão além do que os olhos alcançam. O cenário, na Região Amazônica, conta também a história de famílias quilombolas que, embora cercadas pelos rios, passaram a acessar água de qualidade somente com a chegada do Programa Cisternas.
Por meio da iniciativa, coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), em parceria com organizações da sociedade civil, o Governo do Brasil já levou seis mil cisternas para populações que vivem na Amazônia, desde 2023.
Um investimento que supera o valor de R$ 180 milhões para garantir segurança hídrica a famílias ribeirinhas, indígenas e quilombolas que vivem em comunidades remotas. A entrega mais recente contemplou 34 famílias quilombolas, integrantes da Comunidade Nossa Senhora das Graças, localizada em Óbidos (PA).
Não vamos mais precisar caminhar até a praia, na seca, para buscar água”
Moradora da comunidade Nossa Senhora das Graças, Josefa Bento Azevedo, de 78 anos, sobre o Programa Cisternas
Com casas sobre palafitas, as famílias se preparam para as chuvas que elevam o nível dos rios. A água que transborda faz com que, neste período do ano, a única forma de deslocamento entre as casas seja por meio de barcos – algo que faz parte da rotina dos moradores.
Já na seca, os desafios parecem pesar mais. Durante anos, a maior dificuldade foi enfrentar os dias sem chuva, contou a moradora da comunidade Josefa Bento Azevedo, de 78 anos. “Não vamos mais precisar caminhar até a praia, na seca, para buscar água”, celebrou. A tecnologia social trouxe mais conforto para o seu dia a dia e para receber os netos, que adoram passar o tempo e dormir na casa da avó.
“Estou muito feliz, muito alegre. Alegre até demais, por causa da água que não vou pegar lá no rio mais. Eu gostei, agora não troco mais por nenhuma”, afirmou, enquanto tomava água limpa do filtro. No território, além da tecnologia de captação, armazenagem e tratamento da água, o programa prevê também a instalação de pia, vaso sanitário, chuveiro e outros pontos de acesso à água no domicílio.

- Graças ao Programa Cisternas, pela primeira vez em 53 anos, a agricultora Cátia Azevedo teve chuveiro e saneamento em casa (Foto: Luana Corrêa/MDS)
Desde que o MDS levou o Programa Cisternas até a região, a rotina das famílias atendidas mudou – assim como a relação delas com o uso da água. A agricultora Cátia Azevedo, representante dos moradores da Comunidade Nossa Senhora das Graças, reforçou que é a primeira vez, em seus 53 anos vividos dentro da comunidade, que dispõe de chuveiro e saneamento em casa. A transformação foi uma de suas lutas como liderança comunitária.
“Nós, mulheres, sofremos o impacto. Hoje em dia, a gente só quer captar água e tomar banho. Quando eu entro no chuveiro, quero cada vez mais ficar lá, tomando banho”, sorriu. “Mas, também tem aquela parte da economia: não gastar com facilidade, não ficar de torneira aberta, eu tenho uma economia muito grande sobre isso”, acrescentou Cátia.
Além do bem-estar básico, a tecnologia social ajudou a reduzir a incidência de doenças relacionadas à contaminação da água. “A gente ia buscar água para tomar e era muito poluída, suja, era uma água verde, que não tinha condições de tratamento. Isso causava para nós muita doença de estômago, diarreia, vômitos”, recordou. “Agora, não mais. Nesses meses que a gente já está consumindo água com a tecnologia, está tudo perfeito. E eu só tenho a agradecer”, completou a agricultora.
A ciência corrobora o relato de Cátia. Um estudo conduzido pelo Instituto de Economia do Trabalho (IZA, na sigla em inglês), demonstra o impacto da política de segurança hídrica do Governo do Brasil na saúde da população. Em áreas de cobertura do Programa Cisternas, foi registrada a diminuição de doenças relacionadas à qualidade da água. A queda foi de 16% das internações hospitalares entre adultos e 37% menos internações infantis.
Desenvolvimento
Em Óbidos, um grupo de entidades e organizações parceiras do MDS dá suporte para a execução do programa na ponta. Entre eles, atuam a Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Município de Óbidos (ArqMob), o Instituto Ágata e o Projeto Saúde e Alegria.
Durante o ato que marcou as entregas para a Comunidade Nossa Senhora das Graças, a secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS, Lilian Rahal, explicou como a tecnologia é desenvolvida na região. “É muito diferente da que a maioria conhece, a cisterna de placa do Semiárido. Aqui, a nossa tecnologia capta a água, ela passa por uma filtragem física e é disponibilizada na casa das pessoas”.
Na Amazônia, o programa é estruturado com caixas d’água. Quando cheias, elas chegam a pesar cinco toneladas. Para sustentá-las em área alagável, os próprios grupos que ali vivem criaram uma técnica local de suporte – uma solução engenhosa desenvolvida por pessoas da própria comunidade, junto com os técnicos do projeto. É tecnologia social que nasce da sabedoria de quem vive na floresta.
“O nosso objetivo, na política de segurança alimentar e nutricional, é fazer com que a água – que é segurança hídrica e impacta na segurança alimentar das pessoas – esteja disponível para todos os cidadãos e todas as cidadãs brasileiras, principalmente quem está vivendo aqui e preservando a Amazônia para o nosso país e para a humanidade”, ressaltou Lilian Rahal.
Na ocasião, a secretária também lembrou do papel decisivo do Cadastro Único para a execução das políticas públicas que asseguram direitos à população mais vulnerável, como é o caso do Programa Cisternas. “A gente só chega aqui porque o Cadastro Único chegou primeiro, identificou essas pessoas e nos mostrou que elas estavam aqui e que precisavam de água de qualidade”, ressaltou Rahal.
Investimento
O Programa Cisternas tem como prerrogativa não somente o envolvimento, mas o protagonismo da comunidade que recebe a tecnologia social. Com isso, a iniciativa contribui para a movimentação da economia na região, pois investe em mão de obra local para o trabalho realizado nos territórios.
“Um dos pontos que a gente trabalha muito quando constrói as tecnologias, em parceria com a sociedade civil, é aproveitar a mão de obra disponível no local. Então, tanto no Semiárido, como aqui na Amazônia, a gente capacita pessoas para o processo construtivo, remunera esses trabalhadores”, detalhou a secretária do MDS.
De Norte a Sul do Brasil, o programa está presente, principalmente no Semiárido, na Região Amazônica e já chegou a municípios do Rio Grande do Sul e do Mato Grosso do Sul.
O Governo do Brasil, por meio do MDS, tem como meta entregar mais de 200 mil cisternas até o fim deste ano. Do total de estruturas finalizadas entre 2023, quando foi retomado o programa, até todo o ano de 2025, 88,6% estão nos nove estados do Nordeste. Só no ano passado, das 48,9 mil entregas, 43 mil foram na região.
Em algumas Unidades Federativas, a evolução é mais acentuada. Em Pernambuco, o salto foi de 15 finalizadas em 2022 para 4,4 mil em 2025, crescimento de 29.000%. Outros estados com avanços expressivos são o Rio Grande do Norte, de 218 para 2.300 (955%), a Bahia, de 870 para 9.000 (934%) e o Maranhão, que saltou de 19 para 701 (3.500%).

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Assessoria de Comunicação – MDS
Fonte: Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome






















